Ao Mundo Português, Nuno Albuquerque relatou os últimos dias da expedição, passados em solo Angolano. Já em Braga, recordou as emoções vividas por todos os membros da expedição, principalmente para aqueles a quem, a chegada a Angola, soube a regresso...
Como foi a entrada em Cabinda?
Entramos em Cabinda (dia 21 de Agosto) e fomos recebidos pelas autoridades militares que já estavam avisados da nossa chegada e facilitaram um bocado essa parte. Depois de alguns contactos que localmente fizemos, ficamos a saber como estava a situação no Rep Democrática do Congo e sobre a melhor forma de o atravessar. Surgiu a oportunidade de atravessarmos no ferry que faz a ligação Cabinda Soyo. Tendo em conta as condições da estrada e a estabilidade que se vivia na República do Congo, optamos pelo ferry
No dia 23 de Agosto fomos de ferry ate ao Soyo e ainda fizemos uma parte do percurso ate Luanda. Fomos dormir a aldeia de Quinzau, onde tivemos uma noite fantástica. Tivemos as crianças da escola a dançar e cantar connosco com uma batucada Tivemos festa ate ás tantas.
Dali ate Luanda, como foi o resto do percurso ?
Na quinta-feira (dia 24), fizemos a etapa de ligação Luanda, tendo parado na Missão Católica do N’Zeto e onde distribuímos parte do auxilio que levamos – material didáctico e medicamentos. Na Missão não sabiam que lá amos e foi surpreendente
Primeiro paramos numa escola onde distribuímos algumas coisas, depois paramos na igreja da Missão e agradeceram muito. Explicamos a razão do gesto, que com poucas coisas se calhar podemos ajudar muito. Nesse dia completamos então a ligação a Luanda onde chegamos já ao cair da noite. A estrada estava em muito mau condições o que atrasou um bocado a ligação. Perto de Luanda, tínhamos dois batedores da policia à nossa espera, que nos conduziram durante cerca de 20 quilómetros, ate à Marginal, na Baía de Luanda. Foi se calhar a única forma de entrarmos em Luanda àquela hora, quando o trânsito é um pouco caótico.
Foi muito bom termos tido essa recepção. Na Marginal já estava prepara a logística para nos acolher, num parque de estacionamento junto ao Comando Central da Polícia da Luanda. Tínhamos várias pessoas à nossa espera: pessoas que tinham acompanhado a expedição através do blog, pessoas conhecidas, a comunicação social, os representantes da Mota Engil.
A partir daí, acabamos por relaxar um bocado em Luanda O descomprimir dos últimos dias, foi muito importante. Estivemos lá sexta (25 de Agosto), sábado (26) e domingo (27) e foi preciso relaxar um bocado. Passeamos em Luanda, os que não conheciam a cidade aproveitaram para o fazer ou que já tinham vivido em Luanda acabaram por rever alguns locais. Eu não tinha muita noção de Luanda, porque a minha vida foi toda centrada no Lobito. Curiosamente, depois de estar em Luanda, tive alguns «flashes» de situações que vivi em Luanda. Por exemplo, lembro-me perfeitamente de ter ido jantar a um restaurante que ficava num prédio alto e lembro-me de estar lá e ter tido essa visão. Mas por exemplo, o Pedro Azeredo, que nasceu e viveu em Luanda, foi ver a casa dele, na zona de Alvalade, que hoje esta ao lado da embaixada da Rússia.
Na sexta-feira (25 de Agosto) tivemos a oportunidade de irmos a um programa da Televisão Pública de Angola (TPA) chamado «Janela Aber ta», onde contamos um bocado das nossas aventuras e tive mos ate bastante tempo de antena, cerca de 15 minutos. Em termos de programação não tínhamos nada agendado previamente A nossa agenda foi um bocado gerida pela Mota Engil e pela comunicação sacia. Um dos nossos anfitriões, o Sr. Vidal, disponibilizou nos o seu barco para darmos um passeio pelo Mussulo, passamos quase todo o dia de sábado (26 de Agosto) a passear de barco, pela baía Luanda, fomos almoçar ao Mussulo demos uma volta enorme, tomas até ao Morro dos Veados, a zona de Viana.
Havia muita curiosidade em relação à expedição?
Havia, porque a televisão em Cabinda tinha filmado a nossa passagem. Sentimos essa curiosidade porque, por exemplo, à noite quando fomos «beber um copo (em Luanda) as pessoas foram falar connosco. Reconheceram-nos e deram os parabéns. No aeroporto, quando saímos os responsáveis e outras pessoas falaram-nos e deram os parabéns. Foi uma reacção da qual não estávamos à espera. As pessoas estavam de alguma forma surpreendidas porque, por um lado, demonstramos, provamos que e possível ligar Angola à Europa por terra.
Que impressões trouxe de Angola?
Não consegui ir ao Lobito Mas a impressão com que fique daquilo que vi é que Angola está numa fase de reconstrução muito grande e positiva. Eu diria mesmo que, apesar de estar a sair de um longo período de guerra, e ainda haver muito para se fazer, vê-se Angola a «mexer». Está quilómetros à frente do resto dos países de Africa que nós atravessamos. Nota-se nas pessoas. Passámos nas aldeias e víamos as escolas todas restauradas, abertas. As crianças uniformizadas, a virem para casa ao fim do dia. Isso urna das coisas que mais me impressionou. Angola está cada vez mais de transformada num estaleiro de obras, com zonas novas a construir. E no resto, vê-se um potencial enorme. Acredito que daqui a dois, três anos, Angola vai estar irreconhecível, vai dar um grande avanço. Há a noção de que as coisas estão a ser reconstruídas, vê-se nas estradas, na cidade Luanda tem uma zona nova - Luanda Sul — que esta completamente em obras, com urbanizações noves Em Cabinda vimos as fachadas das casas a serem pintadas, varredores a varrerem as ruas e a limpar as sarjetas. Nota se que há preocupações que, neste momento começam a fazer com que o pais mude. Nota-se também que há muito a fazer. Passamos, por exemplo, por uma zona de lambris onde estavam a fazer desminagem. Também se nota uma grande estabilidade a nível das autoridades. Aquilo que nós nalguns países sentimos mais, a pressão dos militares, da policia, ao longo da estrada, em Angola, não sentimos manifestamente. Isso criou, entre todos, uma situação de junto conforto
Isso significa que Angola poderá ser destino de outra expedição?
Significa que está no bom caminho, o que para nós é gratificante. Em termos de novos projectos, obviamente depois de termos feito esta viagem, claramente ficamos com a ideia de que Angola poderá ser um destino em termos futuros. Para mim, fica por tazer uma viagem ate ao sul de Angola.
Ana Grácio Pinto
In O Mundo Português, Edição de 15.09.2006